FORMAÇÃO DA CIDADE MODERNA E AS TEORIAS URBANISTICAS QUE LHE SEGUEM

Sumário
1. Formação
da cidade moderna e as teorias urbanisticas que lhe seguem
1.1. Formação
da cidade moderna
1.1.1. Pilares
da Formação Urbana
1.1.2. O
Urbanismo Modernista (Carta de Atenas)
1.2. As
Teorias Urbanísticas Fundamentais
1.2.1. O
Urbanismo Haussmanniano (Paris, 1853-1870)
1.2.2. A
Cidade-Jardim de Ebenezer Howard (1898)
1.2.3. O
Movimento Modernista e a Carta de Atenas (1933)
1.2.4. O
Impacto No Contexto Africano E Em Moçambique
1.2.5. Maputo
(Ex-Lourenço Marques) e o Plano de Xadrez
1.2.6. A
Beira e o Modernismo Ferroviário
1.2.7. Cidades
Pós-Independência e o Desafio Atual
1.
Formação da cidade moderna e as
teorias urbanisticas que lhe seguem
1.1. Formação da cidade moderna
A
formação da cidade moderna é o resultado de uma transição drástica iniciada no
século XIX, impulsionada pela Revolução Industrial. Esse processo substituiu a
lógica das cidades tradicionais (densas e muradas) por uma organização baseada
na indústria, no fluxo de transportes e na setorização das funções urbanas.
Na opinião de GOITIA (1992) citado por ABIKO, ALEX KENYA, et all (1995, Pag. 43), o grande desenvolvimento das cidades e das formas de vida urbana é um dos fenômenos que melhor caracteriza nossa civilização contemporânea. A cidade não é um feito recente: é resultante de um processo histórico. Ao longo deste século e do passado observa-se um aumento vertiginoso da migração da população rural para as cidades. Tal fato tem modificado a distribuição da população mundial. Ainda segundo o autor, uma das grandes marcas desse século tem sido o “formidável crescimento dos grandes centros urbanos, que não se verificava anteriormente porque o avanço demográfico geral era muito mais lento e porque esse excedente demográfico não era absorvido desproporcionadamente pelas grandes cidades”. Contudo, nas últimas décadas, o ritmo de crescimento das cidades está sendo muito superior ao das possibilidades de previsão das autoridades públicas, a sua capacidade de assimilar os problemas e geralmente dos recursos disponíveis para proceder às reformas de grande vulto que se fazem necessárias para criar novas estruturas eficazes.
Uma
parte da população que chega às cidades é forçada a se distribuir nos locais
mais “miseráveis e abandonados, invadindo propriedades alheias ou zonas com
condições urbanas inadequadas. Isto deu lugar aos chamados bidonvilles das cidades francesas ou argelinas, as chabolas (barracas de madeira) ou
chabolismo espanhol, as famosas favelas brasileiras, os ranchos venezuelanos,
etc. Não há cidade em processo de crescimento agressivo que não sofra destas
manifestações patológicas”. (GOITIA, 1992) citado por ABIKO, ALEX
KENYA, et all (1995, Pag. 46).
Para
ABIKO (1990), as reflexões incidentes sobre a situação habitacional nos grandes
centros urbanos mostram que as soluções mais significativas encontradas pela
população pauperizada para
resolver
seu problema imediato de falta de um "teto" podem ser caracterizadas
de acordo com os diferentes tipos de moradia atualmente existentes, tais como
os cortiços, as casas precárias de periferia, os barracos de favelas e os
sem-tetos.
Localizadas
em sua maioria em ambientes degradados, clandestinos e sem infra-estrutura,
essas
moradias
constituem, segundo ABIKO e IMPARATO (1993), assentamentos piri urbanos que distinguem um processo diferenciado de produção de
cidades, com características próprias de constituição, crescimento e mudança
com o decorrer do tempo.
Esses assentamentos piri urbanos são para alguns o lugar de onde começam a subir socialmente enquanto que para outros será o último degrau de uma dolorosa decida na escala social. Para GOITIA (1992) citado por ABIKO, ALEX KENYA, et all (1995, Pag. 46), “os organismos oficiais, planificadores e urbanistas são lentos nas previsões e ainda mais nas realizações. Enquanto delimitam as zonas convenientes e planificam na sua base, preparando soluções para o crescimento, a realidade, com os imperativos violentos, rompe pelos lugares mais imprevistos e incongruentes; e quando as autoridades resolvem tê-los em conta, deparam com uma realidade ingrata e volumosa, que modifica os dados de um problema que se projetava abordar serenamente nos estiradores43 de desenhos. (...) A cidade vai-se transformando com um crescimento que nem é ordenado por via técnica, nem pausado e orgânico por via natural”. Por conseguinte, esse crescimento urbano produz tanto problemas nos núcleos centrais, quanto nas periferias das cidades que sofrem com a falta de acessos e de transporte coletivo. Toda ordenação espacial é questionável se não existir uma adequada acessibilidade, meios de transporte público eficazes e uma rede viária capaz e inteligentemente planejada para atender toda a demanda necessária. (GOITIA, 1992) citado por ABIKO, ALEX KENYA, et all (1995, Pag. 46).
A
cidade moderna tem se deixado levar em demasia pelas prioridades definidas pelo
tráfego. Para alguns, o tráfego é primordial e a sua solução deve orientar
todas as outras soluções urbanas. “Não faz sentido planificar com vista ao
tráfego sem planificar ainda mais profundamente com vista a outras necessidades
humanas”. (GOITIA, 1992) citado por ABIKO, ALEX KENYA,
et all (1995, Pag. 47)
Questiona-se
qual o urbanismo adequado para esta cidade moderna, principalmente nas cidades
dos países em desenvolvimento.
O
termo urbanismo é quase que empregado exclusivamente nas situações aonde irá se
desenhar ou projetar uma nova cidade, a partir de um espaço desocupado e vazio.
Esse fato não ocorre, especialmente nos países em desenvolvimento, onde se
procura uma ação urbana sobre o existente, com recursos limitados e com todas
as condicionantes de natureza social e política. Nessa direção, a ação urbana
cada vez mais distancia-se do urbanismo clássico para aproximar-se de um entendimento
da cidade enquanto um empreendimento.
A
cidade enquanto empreendimento deverá satisfazer às necessidades individuais e
coletivas dos vários setores de sua população; para tanto deve-se articular
recursos humanos, financeiros, institucionais, políticos e naturais para sua
produção, funcionamento e manutenção. A este processo dirigido para operar a
cidade, dá-se o nome de gestão urbana.
A
gestão urbana é portanto uma ação política, componente do governo da cidade,
responsável pela elaboração de políticas públicas, pela sua concretização em
programas e pela execução dos projetos.
1.1.1.
Pilares da Formação Urbana
A
cidade moderna não cresceu organicamente; ela foi planejada para atender à nova
produção capitalista. Os principais fatores incluem:
v Industrialização:
As fábricas tornaram-se o novo centro de gravidade, atraindo massas de
trabalhadores do campo (êxodo rural).
v Avanço Tecnológico:
O uso do aço, concreto armado e elevadores permitiu o surgimento de
arranha-céus, otimizando o espaço central.
v Mobilidade:
A cidade foi redesenhada para o automóvel, com largas avenidas e sistemas de
transporte público que conectavam as periferias aos centros.
v Saneamento:
Reformas urbanas (como as de Haussmann em Paris) visavam higienizar as cidades,
combatendo epidemias e facilitando o controle social.
1.1.2.
O Urbanismo Modernista (Carta de
Atenas)
No
início do século XX, arquitetos como Le Corbusier formalizaram os princípios da
"cidade moderna" através do CIAM (Congresso Internacional de
Arquitetura Moderna). A ideia era tratar a cidade como uma "máquina de
morar".
v Zoneamento Rígido:
Divisão da cidade por funções: Habitar, Trabalhar, Recrear e Circular.
v Edifícios
Isolados: Fim dos quarteirões fechados. Prédios altos cercados por grandes
áreas verdes.
v Higiene e Sol:
Valorização da luz natural e ventilação, rompendo com as vielas escuras
medievais.
v Brasília como Exemplo:
A capital brasileira é o maior ícone mundial de uma cidade construída do zero
sob esses preceitos.
v Beira como exemplo,
estoril é o bairro digno de nota com zona erguida do zero e ainda em expansão
sobre essa ideologia.
1.2. As Teorias Urbanísticas Fundamentais
1.2.1.
O Urbanismo Haussmanniano (Paris,
1853-1870)
Georges-Eugène Haussmann introduziu o "urbanismo de
regularização".
v Grandes Avenidas: Rasgaram o tecido medieval para facilitar a
circulação e o controle militar.
v Higiene: Criação
de sistemas de água, esgoto e parques públicos.
v Estética: Fachadas
uniformes que deram à cidade uma identidade burguesa e monumental.
1.2.2.
A Cidade-Jardim de Ebenezer Howard
(1898)
Como resposta ao gigantismo industrial, Howard propôs um
modelo de síntese:
v Integração Campo-Cidade: Cidades limitadas em população (aprox. 32.000
habitantes).
v Cinturões Verdes: Áreas agrícolas permanentes ao redor do núcleo
urbano.
v Autossuficiência: Espaços onde o cidadão pudesse morar e trabalhar
sem longos deslocamentos.
1.2.3.
O Movimento Modernista e a Carta
de Atenas (1933)
Liderado por Le Corbusier, o modernismo foi a teoria mais
influente do século XX.
v Zoneamento Funcional: A cidade dividida rigidamente em quatro
funções: Habitar, Trabalhar, Recrear e Circular.
v A "Máquina de Morar": O uso do betão armado, pilotis e grandes blocos de
apartamentos em altura para libertar o solo.
v A Supremacia do Automóvel: Ruas desenhadas para a velocidade, ignorando a
escala do pedestre.
1.2.4.
O Impacto No Contexto Africano E
Em Moçambique
Muitas cidades moçambicanas (como Maputo e Beira) foram
influenciadas pelo urbanismo colonial português, que bebeu das fontes
modernistas e haussmannianas.
O urbanismo moçambicano é um reflexo direto das teorias
discutidas anteriormente, adaptadas ao regime colonial português.
1.2.5.
Maputo (Ex-Lourenço Marques) e o
Plano de Xadrez
v Influência de Haussmann: A cidade baixa e a cidade alta foram desenhadas com
avenidas largas e retilíneas para facilitar o vento (higienismo) e o movimento
de tropas.
v Segregação Funcional: O centro era administrativo e comercial, enquanto
os bairros como a Polana eram estritamente residenciais para a elite.
v A Barreira do Caniço: O zoneamento moderno parava onde começavam os
bairros das populações locais, criando um contraste morfológico que persiste
até hoje.
1.2.6.
A Beira e o Modernismo Ferroviário
v Cidade Linear/Industrial: A Beira desenvolveu-se em torno do porto e do
caminho-de-ferro, seguindo a lógica da circulação e logística industrial.
v Arquitetura Icónica: O Grande Hotel da Beira e a Estação Ferroviária são
exemplos máximos do modernismo que buscava a eficiência funcional.
1.2.7.
Cidades Pós-Independência e o
Desafio Atual
v Herança de planeamento: Após 1975, Moçambique herdou cidades com zoneamento
rígido que não comportavam o crescimento explosivo da população.
v Urbanismo Informal: A falha em aplicar as teorias de "habitação para todos" do modernismo resultou na expansão dos assentamentos informais, onde a "cidade moderna" tenta agora integrar-se à "cidade real".
Conclusão
A análise da formação da cidade moderna e das teorias
urbanísticas que a sustentam revela que o planeamento urbano não é um processo
neutro, mas uma resposta direta às crises sociais, económicas e sanitárias de
cada época. A transição da cidade industrial caótica para a metrópole planeada
foi marcada por uma busca incessante pela ordem, funcionalidade e higiene,
conceitos que deram origem a modelos icónicos como o higienismo de Haussmann,
as Cidades-Jardins de Howard e o funcionalismo rigoroso de Le Corbusier.
Conclui-se que, embora o modernismo tenha trazido avanços
tecnológicos e de infraestrutura sem precedentes, a sua aplicação rígida
através do zonamento funcional acabou por gerar cidades fragmentadas e
dependentes do transporte motorizado. No contexto africano, e especificamente
em Moçambique, o impacto destas teorias foi mediado pelo fenómeno colonial,
resultando na criação de "cidades duais". O modelo moderno foi
utilizado como ferramenta de segregação, estabelecendo um contraste nítido
entre a "cidade de cimento" planeada e as periferias orgânicas de
caniço, uma realidade morfossocial que ainda desafia a gestão urbana
contemporânea.
Portanto, o estudo das teorias urbanísticas modernas é
fundamental para que os futuros profissionais moçambicanos possam compreender
as raízes das desigualdades espaciais. O desafio atual reside em superar a rigidez
do modernismo clássico, integrando soluções de urbanismo sustentável e
inclusivo que respeitem a dinâmica social e a escala humana nas nossas cidades.
Referências Bibliográficas
ABIKO, ALEX KENYA, et all (1995): Urbanismo:
História E Desenvolvimento, Pag. 37-47
Howard, Ebenezer (1898): Cidades-Jardins de Amanhã (To-morrow:
A Peaceful Path to Real Reform). Define o modelo de cinturões verdes e cidades
autossuficientes.
Le Corbusier (1923/1933): Por uma Arquitetura e a Carta
de Atenas. Textos base para o urbanismo modernista e o zoneamento
funcional.
https://caosplanejado.com/a-cidade-ideal-na-concepcao-de-5-escolas-de-urbanismo/
Visitado no dia 13.04.2026

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