Fagulha


As pessoas são o que são.

Não peça desculpa por não ter visto antes —

a podridão não avisa,

ela só apodrece.


Elas carregam o incêndio dentro

anos antes de você aparecer.

Constroem o altar,

empilham a lenha,

derramam o combustível

e esperam.


Você foi só o vento errado

na hora certa.


E agora olha pra você —

com as mãos queimadas

tentando provar

que não foi você quem riscou o fósforo.


Ninguém vai te absolver.

Você precisa fazer isso sozinho.


Porque o fogo não tem culpado favorito.

Ele consome o que alcança.

E você ficou perto demais

achando que ia conseguir

controlar uma coisa

que já nascia descontrolada.


Para.

Larga.

Sai enquanto ainda reconhece

o próprio rosto no espelho.


Antes que o que resta de você

sirva só de combustível

pra próxima fogueira dela.


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— Rosário Cangomba ©Fagulha


Interpretação do pensamento do autor

O autor apresenta uma reflexão sobre culpa, lucidez e autopreservação diante de uma relação destrutiva.


A ideia central é que certas pessoas já carregam conflitos, comportamentos nocivos e tendências autodestrutivas muito antes de alguém entrar na vida delas. Por isso, o eu retratado no texto não criou o “incêndio”: foi apenas o “vento errado na hora certa”, isto é, uma circunstância que fez explodir algo que já estava preparado para acontecer.


As imagens do altar, da lenha e do combustível mostram que a destruição não surgiu de repente. Ela vinha sendo construída silenciosamente. Já as mãos queimadas representam as consequências sofridas por quem ficou perto demais e, depois, tentou provar que não era culpado pelo desastre.


Quando o autor diz que “ninguém vai te absolver”, não está necessariamente condenando a personagem. Pelo contrário: afirma que ela precisa deixar de depender da validação dos outros e perdoar a si mesma. A libertação começa quando se reconhece que não é possível salvar, controlar ou corrigir alguém que já vive num ciclo de destruição.


O final — “Para. Larga. Sai” — é uma ordem urgente de sobrevivência. O espelho simboliza a identidade: é preciso partir antes de deixar de se reconhecer. Tornar-se “combustível para a próxima fogueira” significa continuar sendo consumido e usado para alimentar um padrão destrutivo que provavelmente se repetirá.


Em síntese, o pensamento do autor é: você não deve assumir a culpa pelo caos que já existia no outro, mas precisa assumir a responsabilidade de se afastar antes que esse caos também destrua você. 


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