O Dinheiro que o Vento Não Levou


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O sol ainda não tinha decidido acordar de vez quando Marcos fechou a porta de casa com cuidado — não queria despertar os irmãos. Tinha ensaiado aquele momento tantas vezes na cabeça que já sabia de cor o peso dos passos, o cheiro do ar da manhã, a sensação do envelope dobrado dentro do bolso.


Quinhentos meticais.


Não era muito. Para alguns, era o troco esquecido numa gaveta. Para Marcos, era um ano.


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Tinha começado numa manhã igual a esta, trezentos e sessenta e cinco manhãs atrás, quando olhou para os dois irmãos a dormir no mesmo colchão e prometeu a si mesmo — não em voz alta, porque as promessas ditas em voz alta pesam demais quando falham — que ia mudar alguma coisa. Foi à cozinha, contou o que tinha, e decidiu fazer bolos.


Bolos simples. De milho, de amendoim, às vezes de coco quando conseguia. Acordava antes do sol, assava, enrolava em plástico transparente e saía com a tabuleiro na cabeça pelas ruas do bairro. Vendia um a um, metical a metical, sorrindo para clientes que às vezes nem olhavam para a sua cara.


No fim de cada dia, tirava o que era dos irmãos — comida, sabão, petróleo para o candeeiro — e o que sobrava ia para dentro de um envelope velho que escondia debaixo do colchão. Não havia muito que sobrar. Mas sobrava.


Trezentos e sessenta e cinco dias depois, tinha quinhentos meticais.


Hoje era o dia.


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Caminhou com aquele passo leve de quem carrega um sonho que finalmente pesa menos do que a realidade. A universidade ficava a quarenta minutos a pé — dinheiro de chapa ele não gastava, esse ia para o envelope. Mas não era peso, era o contrário: cada passo parecia levá-lo para cima.


Não percebeu o momento exato. Talvez quando desviou de uma criança que corria. Talvez quando tirou a mão do bolso para limpar o suor da testa. O envelope tinha uma dobra fraca — ele sabia, mas tinha pensado que aguentava.


Não aguentou.


Os quinhentos meticais caíram em silêncio, como cai uma folha, como cai um sonho — sem barulho nenhum.


E Marcos continuou a caminhar, leve demais para sentir a diferença.


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Uma hora depois, Rita passou pelo mesmo caminho.


Tinha dormido mal, como costumava dormir nas noites em que o dinheiro estava curto e os pensamentos estavam longos. Ia ao mercado sem saber bem o que comprar, porque o que havia para comprar dependia do que havia para gastar, e não havia quase nada.


Foi o sol que lhe mostrou. Um reflexo branco no chão, ali entre as pedras. Parou. Olhou. Olhou de novo.


— Wau!


Saiu da boca antes que o cérebro pudesse pensar. Agachou-se, apanhou, contou com os dedos a tremer.


Quinhentos meticais.


O coração bateu tão forte que ela teve de encostar a mão ao peito. Olhou para os lados — não havia ninguém. A rua estava quieta, o sol estava quente, e na mão dela havia quinhentos meticais que não eram dela.


Ou eram?


Esse pensamento durou exactamente três segundos. Depois veio outro, mais suave, mais tentador: a vida às vezes compensa as pessoas que merecem. E Rita merecia, não merecia? Quantas vezes tinha ajudado a vizinhança, quantas vezes tinha dado sem ter, quantas vezes tinha sorrido quando queria chorar?


Hoje a vida sorria para ela.


Não perguntou mais nada a si mesma. Fechou o punho, respirou fundo, e sorriu pela primeira vez em muito tempo.


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Na universidade, Marcos chegou com o peito cheio de ar e o coração pronto.


Fez a fila. Esperou. Chegou a sua vez.


A senhora na secretaria olhou para ele por cima dos óculos e disse, com a voz plana de quem já repetiu aquilo mil vezes:


— O pagamento é feito no banco. Precisa do comprovativo.


Marcos assentiu, saiu, foi ao banco. Na fila do banco, meteu a mão no bolso.


Vazio.


Meteu a outra mão. Vazio.


Abriu a mochila. Revirou. Tirou tudo para fora — o caderno velho, a caneta sem tampa, o cartão de estudante que ainda não servia para nada. Não havia envelope. Não havia dinheiro.


O mundo não parou. Esse é o pior de tudo — o mundo não para quando o chão some debaixo dos nossos pés. As pessoas continuavam a passar, a fila continuava a andar, um funcionário tossia ao telemóvel. E Marcos ficou ali parado, com a mochila aberta e as mãos no ar, como quem acabou de perceber um truque de magia que não tinha graça nenhuma.


Saiu do banco devagar.


Refez o caminho inteiro, com os olhos no chão, como se os quinhentos meticais pudessem ter voltado ao sítio por conta própria. Perguntou a dois vendedores de rua. Perguntou a uma senhora que varria a porta. Ninguém vira nada.


Chegou a casa antes dos irmãos acordarem.


Sentou-se no chão da cozinha, encostou as costas à parede, e pela primeira vez em muito tempo, Marcos chorou. Não em voz alta — esse era um luxo que os irmãos não podiam ouvir. Chorou por dentro, daquele jeito que dói mais, que fica mais tempo.


Um ano. Um ano inteiro.


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Três casas abaixo, Rita estava radiante.


Tinha ido às compras com aquela leveza de quem não precisa de contar o que gasta. Sapatos novos — esses que tinha visto na montra há meses. Um vestidinho florido. Um batom cor de rosa que lhe ficava bem, ela sabia. E uma sombra para os olhos, porque às vezes uma mulher precisa só de se sentir bonita.


Chegou a casa com sacos nas mãos e um sorriso enorme.


Não havia nada sobrando. Mas havia alegria, e a alegria, pensou ela, também alimenta.


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Foi só à tarde, quando as crianças do bairro já brincavam lá fora e o sol começava a dobrar, que as histórias se encontraram.


Marcos saiu de casa para respirar. Rita estava na varanda, com os sapatos novos ainda no pé, a admirá-los.


— Marcos! — chamou ela, com o sorriso ainda fresco. — Hoje foi um dia de sorte para mim, sabes?


Ele parou. Olhou para ela.


— Encontrei dinheiro no caminho de manhã. Quinhentos meticais! — riu ela. — Comprei umas coisas que precisava há muito tempo.


Marcos ficou quieto um segundo. Depois dois. Depois dez.


— Onde foi isso? — perguntou ele, com a voz calma, daquela calma que não é paz, é contenção.


Rita descreveu o sítio. A hora. O envelope dobrado no chão entre as pedras.


Marcos fechou os olhos.


Quando os abriu, não havia raiva neles. Havia algo pior — havia compreensão. Porque ele conhecia a Rita. Sabia que ela não era má. Sabia que ela também lutava. Sabia que, se as posições fossem trocadas, talvez ele também tivesse hesitado.


— Era meu — disse ele, simplesmente. — Era para a matrícula.


O sorriso de Rita morreu devagar, como uma vela que o vento apaga sem pressa.


— Marcos…


— Levei um ano a juntar.


O silêncio entre os dois pesou mais do que qualquer palavra. Rita olhou para os sapatos novos. Para o vestido. Para o batom que ainda estava na mesa. E pela primeira vez, a alegria virou-se do avesso e mostrou o que havia debaixo.


Não era culpa. Era pior — era arrependimento sem solução.


— Eu não sabia — sussurrou ela.


— Eu sei — disse ele.


E foi isso. Não havia mais o que dizer. O dinheiro estava gasto. O ano estava perdido. A matrícula ia ter de esperar mais outro ano de bolos, de madrugadas, de meticais contados um a um.


Marcos voltou para dentro.


Rita ficou na varanda, com os sapatos novos que já não lhe faziam sentido, a olhar para o caminho vazio.


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Nessa noite, antes de dormir, Marcos olhou para os irmãos quietos no colchão e fez outra promessa — desta vez em voz alta, porque algumas promessas precisam de ser ditas para existirem de verdade:


— Para o ano.


E debaixo do colchão, colocou um envelope novo. Vazio.


Pronto para começar outra vez.


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Apanhar dinheiro é sorte?


Talvez. Mas a sorte, como o dinheiro, tem sempre um dono. E às vezes esse dono tem um nome, um sonho, e dois irmãos que dependem dele.


Contado por Rosário Cangomba 

15 de junho 2015

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