A Cova do Homem
por inspiração em Rosário Cangomba
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Ele cavou com unhas e ambição,
com dentes cerrados no barro do mundo,
cada moeda uma pá de solidão,
cada conquista — um palmo mais fundo.
Ninguém o empurrou.
Ele desceu sozinho,
convencido de que o ouro
era o fim do caminho.
Lá em cima ficaram os filhos,
o riso da tarde, o silêncio do amor,
as mãos que esperavam, os anos tranquilos —
ele não viu. Só via o vapor
do esforço, a ilusão do crescer,
o ruído das pedras que rolavam, surdas.
Quanto mais fundo,
mais estreito o horizonte.
Quanto mais fundo,
mais longa a distância da fonte.
E a cova foi crescendo como ele queria —
profunda, segura, toda sua, só sua —
até que a luz da superfície
virou uma lua
pequena, distante,
e depois
ponto.
E depois
nada.
Ele ainda respirava.
O coração ainda batia no peito de barro.
Mas a vida real —
a que ri, a que chora, a que ama sem amparo —
já havia partido,
cansada de esperar
que ele parasse de cavar
e escolhesse subir.
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A ganância não mata o corpo.
Mata a presença.
dentro da sua própria ausência.

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